Paulo Paim aproximou sindicalismo da causa antirracista, da Constituinte ao Senado

Senador pelo PT do Rio Grande do Sul integrou a Bancada Negra nos anos 1980 e tem atuação voltada para a pauta sindical.

Não foi em Caxias do Sul ou em Brasília, mas nas ruas de Joanesburgo que Paulo Paim (PT-RS), então deputado federal, viu pela primeira um brinquedo que ele desejava dar de presente para suas duas filhas.

O ano era 1990 e, numa caminhada pela cidade da África do Sul, Paim parou diante de uma loja de brinquedos em que havia bonecas negras à venda.

“Era um sonho das minhas filhas, porque [no Brasil] tinha só bonecas brancas. No Brasil daquele período não se achava. Podia ter, mas eu nunca vi. Daí eu comprei as bonecas negras e trouxe para as [minhas] filhas no Brasil”, relembra. “Elas guardaram as bonecas para toda a vida.”

A viagem para a África do Sul marcou o hoje senador de 73 anos. Ele fazia parte de uma delegação de parlamentares brasileiros que foi ao país para celebrar a libertação de Nelson Mandela e convidá-lo a visitar o Brasil.

Paim pôde testemunhar de perto os últimos anos do apartheid e como a África do Sul se preparava para a transição para a democracia. As comparações entre o rígido regime de segregação racial institucionalizado e o que ele havia vivido no Brasil até então foram inevitáveis.

“Aqui no Brasil sempre foi um racismo camuflado, disfarçado”, afirma.

O senador tem na memória episódios de racismo ainda na sua pré-adolescência, mas conta que seus pais bolavam histórias para preservá-lo. Sua mãe dizia que ele era descendente de uma família real africana e que qualquer ofensa racial sofrida por ele era motivada por ciúmes.

Paim se envolveu no movimento estudantil e, pouco depois, no sindicalismo do Rio Grande do Sul. Dois ambientes em que, recorda, havia pouquíssimos negros.

A causa antirracista ganhou nova dimensão em 1986, quando ele foi eleito deputado federal constituinte pelo PT. Antes de se mudar para Brasília, foi procurado pela deputada Benedita da Silva, também eleita para a Constituinte pelo partido.

“Eu disse a ele: ‘Paim, eu sei que você é sindicalista, mas você também é um homem negro’. Ele pessoalmente se engajou nessa luta. Se o movimento sindical hoje combate a questão do racismo, tem muito a contribuição do senador Paim”, conta Benedita à Folha.

A conversa inicial entre Benedita e Paim foi um passo importante para a criação da Bancada Negra na Constituinte. Quatro deputados —Paim, Benedita, Carlos Alberto Caó Oliveira dos Santos e Edmilson Valentim— passaram a atuar conjuntamente para garantir que a questão racial entrasse na agenda dos debates.

Negros na política

Série perfila alguns dos mais conhecidos e importantes negros com atuação na política nacional/Catarina Pignato/Folha de São Paulo.

Leci Brandão (PC do B) foi a segunda mulher negra eleita para a Assembleia de São Paulo, em 2010, depois de um vácuo de quase 30 anos; a pioneira foi a advogada Theodosina Ribeiro/Marlene Bergamo/Folhapress.

Laelia dde Alcântara (PMDB-A) foi a primeira mulher negra do Senado; ela assumiu o mandato em 1981, no final da ditadura militar/Senado Federal.

O advogado e político Antônio Pereira Rebouças, primeiro deputado negro do Brasil/José Rosael e Hélio Nobre/Museu Paulista da USP.

Deputado federal pelo Avante da Bahia, o Pastor Sargento Isidório tem trajetória política marcada por dramas pessoais, mudanças de percurso e polêmicas em série/Felipe Iruata/Reuters.

Abdias Nascimento foi Senador pela primeira vez em 1991; ele defendia que a atuação política era um caminho para a luta contra o racismo/Agência Senado.

Valentim também vinha do sindicalismo. Ele afirma que o grupo atuou para mostrar que a luta contra o racismo era também pauta dos trabalhadores. “O nosso papel foi fazer a junção da luta contra racismo com a luta pelos direitos dos trabalhadores. Havia sinergia em muitas dessas batalhas”, diz à Folha.

Para ele, a grande vitória da Bancada Negra foi a classificação, na Constituição, do racismo como crime inafiançável.

Além da questão racial, Paim consolidou uma atuação parlamentar voltada para o sindicalismo e para a agenda dos trabalhadores e aposentados.

Entre Câmara e Senado, Casa para a qual foi eleito pela primeira vez em 2002, teve protagonismo nas discussões do Estatuto do Idoso, na política de valorização do salário mínimo do governo Lula (PT), no Estatuto da Igualdade Racial e no Estatuto da Pessoa com Deficiência, entre outros.

Neste ano, foi relator do projeto de lei que reformulou o sistema de cotas no ensino federal e prorrogou a política até 2033.

Houve momentos em que projetos do governo do PT o colocaram em linha de colisão com sua base sindical.

Em 2003, votou a favor da reforma da Previdência de Lula. “Nunca fui vaiado em lugar nenhum depois que eu entrei na vida pública. Aí [no dia da votação da reforma] eu vi as galerias [do Senado] me vaiarem”, diz Paim.

Os petistas que se rebelaram e votaram contra as mudanças nas aposentadorias foram expulsos do partido. No expurgo, estava Heloísa Helena, então colega de Paim no Senado.

O senador afirma que seguiu a orientação do governo depois de ter negociado uma proposta que amenizava os efeitos da reforma.

O senador Paulo Paim e mães de santo comemoram a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial no Congresso, em 2009 – Sergio Lima – 9.set.09/Folhapress.

Paim viveu outra crise mais de dez anos depois e chegou a ameaçar sair do PT —legenda que ele escolheu nos anos 1980 pelas ligações com o movimento sindical.

Em 2015, em meio à discussão de propostas do governo Dilma Rousseff (PT) que endureciam regras do seguro-desemprego e do abono salarial, Paim deu entrevistas nas quais disse que poderia abandonar a sigla. Ao jornal O Globo afirmou que Dilma fez o contrário do que tinha dito “dia e noite na campanha”. Daquela vez, votou contra a orientação do Planalto.

Paim afirma que a razão de ter decidido ficar no PT foi um apelo de Olívio Dutra, quadro histórico do petismo gaúcho. Os dois coincidiram como deputados constituintes e chegaram a dividir por alguns meses um apartamento funcional em Brasília com Lula, à época outro parlamentar do PT.

“Olívio me chamou em uma reunião da [comissão] executiva do PT em Porto Alegre e me disse: ‘Paim, por que tu vai sair do PT? Você é um quadro da classe trabalhadora, é um equívoco você sair. Então vou te pedir que tu não saia’”, conta o senador.

Ele permaneceu. Em 2018, quando a onda ultraconservadora liderada por Jair Bolsonaro varreu o país, Paim garantiu seu terceiro mandato no Senado. O resultado suado —ele passou na segunda vaga, atrás do bolsonarista Luiz Carlos Heinze (PP)— ajudou o PT a evitar perdas ainda maiores na sua bancada.

O senador ainda tem pela frente pouco mais de três anos de mandato. Não pretende disputar novamente a reeleição.

Mais de 30 anos depois de ter trazido para o Brasil as bonecas negras para suas filhas, o senador ainda se mobiliza pelo tema da representatividade. “Eu gostaria de ver mais prefeitos negros, mais governadores negros. Eu gostaria de ver até mais generais negros também.”

Nesse sentido, engrossa as filas dos que anseiam por ver uma mulher negra no Supremo Tribunal Federal, algo ainda inédito.

“Claro que eu gostaria. Mas a decisão é do presidente, é dele. Como diz o outro: ‘Quer decidir no meu lugar? Te candidata e conquista espaço’. Mas que gostaria de ver uma mulher negra no Supremo —e não só no Supremo, em todas as instância de poder—, gostaria.”

Raio-X/Paulo Paim/73

Nascido em Caixas do Sul (RS), Paulo Paim é metalúrgico e se tornou líder sindical no início da década de 1980. Filiou-se ao PT e foi eleito deputado federal constituinte. Permaneceu na Câmara até 2002, quando foi eleito para o Senado. Cumpre o terceiro mandato na Casa.

Fonte: Folha de São Paulo

Comunicação/Cal/Pública/2023

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