Quem foi o homem negro que proclamou a República antes de Marechal Deodoro?

Muitas histórias são contadas sobre a proclamação da República do Brasil, que se deu a 15 de novembro de 1889 e foi atribuída ao Marechal Deodoro da Fonseca, e todas elas têm sempre personagens brancos ilustres. Mas a maioria dos livros omite a participação igualmente protagonista que diversos negros tiveram em momentos importantes de nossa história.

Neste 15 de novembro, Ecoa lembra um desses personagens que, segundo relatos de alguns historiadores, foi quem tomou a iniciativa, antes do Marechal Deodoro, de proclamar a República. Ele era um jornalista negro e se chamava José do Patrocínio.

Além de jornalista, Patrocínio era escritor e farmacêutico. Na época da proclamação também era vereador. De acordo com o livro 1889, do jornalista Laurentino Gomes, foi ele quem tomou a iniciativa de proclamar a República, por volta das 18h, perante um grupo reunido na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, enquanto Marechal Deodoro da Fonseca ainda elaborava a mudança de regime.

O livro conta que Deodoro estava doente, destituiu o ministério e promoveu um desfile de tropas pela capital demonstrando um levante militar. No entanto não proclamou o novo regime. Ainda segundo a publicação, no calor do momento da revolta, o escritor e político Aníbal Falcão foi até o jornal de Patrocínio para que fosse escrita uma moção pública abolindo a monarquia. Foi esse documento que ele leu no plenário da Câmara e que colocou fim à monarquia.

“A história contada é quase sempre branca, restringindo a população preta aos papéis de escravizados ou a personagens em lutas pontuais, como Zumbi dos Palmares. José do Patrocínio é uma das figuras mais emblemáticas na luta abolicionista brasileira.”

Henry Guimarães, historiador

Mas a importância deste homem para o Brasil é ainda maior do que essa participação e mudaria o curso de nossa história. Saiba um pouco mais sobre ele.

Meio livre, meio escravizado

José do Patrocínio nasceu em 1853 na cidade de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, do ato violento de um padre branco contra uma mulher escravizada de 15 anos de idade. Como era comum acontecer, não foi assumido pelo pai, que o enviou para crescer como homem livre e uma de suas fazendas.

Teve acesso a boas escolas públicas e começou a dar aulas particulares na idade adulta para conseguir sobreviver. Foi em uma dessas aulas que conheceu sua futura esposa, Maria Henriqueta, filha de um militar que frequentava o Clube Republicano, entidade que apoiava a adoção de uma República em lugar ao regime monárquico.

Eles se casaram e tiveram filhos, mas sua vida privada não é muito conhecida. Sabe-se apenas que um de seus filhos também se tornou jornalista e que o casal, durante toda a sua vida, recebeu ataques públicos racistas pela cor da pele de Patrocínio.

Para o historiador, que é professor da Universidade Federal da Grande Dourados, ele representa a contradição da sociedade brasileira, uma vez que era livre, mas jamais integrou a sociedade como os brancos devido à sua cor.

“Ao contrário, ele se reuniu com importantes figuras negras da época e, juntos, criaram uma das maiores campanhas para a libertação dos escravizados, a Confederação Abolicionista, resultando na assinatura da Lei Áurea, em 1888. “

Henry Guimarães, historiador

Tigre da abolição’

Dono de uma retórica cativante, Patrocínio conseguia prender a atenção de grandes multidões quando falava e, como já escrevia para o jornal Gazeta de Notícias, um dos maiores da época, pediu um empréstimo ao pai de sua esposa, o militar Emiliano Rosa de Sena, e comprou o jornal para si, assumindo uma luta pública contra a escravidão.

De acordo com a Enciclopédia Negra, publicação com biografias afro-brasileiras (Companhia das Letras), Patrocínio reuniu ao seu redor um grupo de jornalistas e oradores que, ao lado de André Rebouças, deu origem à Confederação Abolicionista, em 1880. Esta agremiação ajudou a manter vivo o quilombo do Leblon e, por meio de comícios em teatros e manifestações em praça pública, financiou e acolheu escravizados fugitivos.

Logo, a redação do jornal servia como sede da Confederação e coordenou as ações da luta abolicionista que se espalhava no território nacional. Por toda a sua atuação nessa luta, ficou conhecido como o Tigre da Abolição.

Apoiador ou opositor?

José do Patrocínio provocou dúvida em seus apoiadores ao beijar as mãos da Princesa Isabel quando a Lei Áurea foi assinada. “Acredita-se que ele ficou muito feliz em ter conquistado a assinatura da lei por que tanto lutou, mas isso não foi bem-visto na época”, explica o historiador. Isso porque Patrocínio era vereador quando a lei foi assinada, e causou a impressão de estar a favor da monarquia.

Nos anos seguintes, o jornalista se empenhou em usar as publicações do seu jornal para falar da inclusão do ex-escravizado à população liberta, o que não tinha sido detalhado ou contemplado na Lei Áurea. Com isso, firmou sua oposição ao governo e acabou exilado na Amazônia.

Por volta de 1893, ele retornou ao Rio de Janeiro e logo encerrou as atividades na do seu jornal. Buscou a mãe já liberta para viver junto dela, mas ela estava muito doente e morreu em seguida, não desfrutando da liberdade.

José do Patrocínio tinha tuberculose e morreu aos 51 anos no dia 30 de janeiro de 1905. Ele se engasgou enquanto fazia um discurso sobre os direitos dos animais. “Esse discurso nunca foi concluído, mas se tratava de um apelo aos maus tratos que os animais sofriam ao serem usados como meio de transporte”, analisa o historiador.

Carros, aviões e ABL

Em uma viagem à Europa, José do Patrocínio conheceu carros e aviões. Muito progressista, ele gostava de inovações tecnológicas e trouxe ao Brasil um dos primeiros carros de que se tem conhecimento.

O jornalista também tentou construir um balão dirigível, o Santa Cruz, para demonstrar sua admiração ao pai da aviação, Santos Dumont, mas o veículo nunca levantou voo e se transformou em motivo de chacota pública.

José do Patrocínio foi ainda um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou o assento nº 21.

Fonte: Ecoa 

Comunicação/Cal/Pública/2022 

 

 

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