Artigo – O Visconde

José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu, foi um sábio estadista dos tempos do império. Conta-se que certa vez lançou uma intrigante pergunta: “a riqueza e a prosperidade das nações dependem da quantidade do trabalho ou da quantidade da inteligência? E em que proporções?”

A resposta, deu-a ele próprio: “se todos os governos se convencessem de que a inteligência nas operações da sociedade é quase tudo para a riqueza e o poderio dos Estados então cuidariam melhor da educação nacional”. E concluiu: “eu me bato por um sistema econômico baseado no trabalho e na liberdade, mas desde que estes fatores estejam subordinados à inteligência”.

Avancemos quase dois séculos no tempo. Cheguemos a 2014. Naquele ano, segundo apurou o jornalista Eduardo Oinegue, “as cinco principais “commodities” brasileiras exportadas renderam ao país 100 bilhões de dólares. No mesmo ano, só as vendas do iPhone renderam à Apple os mesmos 100 bilhões de dólares. Tudo calculado, descobre-se que a Apple precisou de apenas 24.600 toneladas de iPhone para atingir o valor obtido pelo Brasil com a venda de um volume de “commodities” que se conta na casa das centenas de milhões de toneladas – só de minério de ferro foram 344 milhões. Colocado de forma ainda mais dramática: para faturar o mesmo que a Apple fatura com um único iPhone, o Brasil precisa exportar 8 toneladas de minério de ferro” – uma riqueza não-renovável.

Chegamos a 2021. Refiz esta conta. Alcancei não mais 8 toneladas de minério de ferro, mas até 22 delas para um único aparelho. Parece que a situação piorou de lá para cá. Decidi voltar a 1721, quando Robert Walpole assumiu o cargo de Primeiro-Ministro britânico. Sustentou, com inteligência, ser “evidente que nada contribui mais para a promoção do bem-estar da população que a exportação de produtos manufaturados e a importação de matéria-prima estrangeira”.

Alheios a tudo isso abrimos mão de desenvolver um parque industrial próprio, desnacionalizamos nossas mais importantes empresas e estamos consumindo inebriadamente as maiores riquezas não-renováveis que a natureza nos ofereceu.

O Visconde de Cairu faleceu no dia 20 de agosto de 1835. Deve estar se contorcendo na tumba, a exclamar, com Francis Bacon, que “nada prejudica tanto uma nação quanto gente astuta passar por inteligente”.

Por Pedro Valls Feu Rosa

Comunicação/Cal/Pública/2021

 

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