Pública lamenta a perda do seu Diretor João Elísio Fonseca e em sua homenagem relembra “A Estrela Dalva”

Hoje é um dia mais triste para a Pública que perde um grande defensor do Servidor público. João Elísio Fonseca, pernambucano, secretário-geral da Associação dos Servidores Aposentados e Pensionistas da Alesp (Aspal), é conhecido por sua luta em defesa dos direitos do Servidor.

Em sua homenagem relembramos aqui sua bela obra, a “Estrela Dalva”.

Para além de tijolos e concreto, um lugar se estabe­lece a partir das pessoas que escrevem sua história. É sob a perspectiva do indivíduo, suas experiências e marcas, que esse espaço se reconhece e se redimensiona, dando contorno a universos particulares e coletivos. E permitindo que seus traços arquitetônicos se misturem às contradi­ções e vivências daqueles que o ocupam.

Nesse imaginário coletivo, nem sempre é possível dizer onde começa um e acaba o outro. A história da Assembleia é, portanto, a história das pessoas que por aqui passaram. Que aqui ainda estão. Nada mais legítimo, que a Casa do Povo tenha suas linhas escritas por sua gente.

Por isso, a Assembleia Legisla­tiva de São Paulo traz um espaço destinado aos seus perso­nagens. Às pessoas que contribuíram por meio de seu trabalho e que, por que não dizer, foram fundamentais na construção do maior Legislativo do País.

Autor do livro “A estrela Dalva”, que inspirou a peça teatral homônima, o pernambucano João Elísio Fonseca é funcionário da Alesp há cerca de 39 anos. O mundo artístico sempre permeou sua vida ” afinal, como filho de Creusa Cunha, grande cantora dos anos 60, não poderia ser diferente.

Ele conta que sua infância não foi das mais convencionais. “Minha mãe foi cantora na Rádio Clube e na Rádio Jornal do Comércio de Pernambuco. Às vezes, eu acordava à noite e tinha um conjunto regional tocando música brasileira na sala de casa.”

A mãe de João veio para São Paulo em 1961, e no ano seguinte foi contratada pela Copacabana Discos. Daí por diante foi só sucesso! “Ela recebeu o Troféu Roquette Pinto como a cantora Revelação, os troféus Chico Viola, Imprensa e muitos outros. No total, foram 27 prêmios só naquele ano.”

Na época, ele acompanhou sua mãe em diversos programas de tevê e de rádio. “Recordo-me de um programa do Silvio Santos em que ela foi homenageada como a mãe do ano. Então fomos os sete filhos, ela cantando no palco e a gente ali atrás. Foi bom porque ela ganhou o cachê e nós os presentinhos. Então eu tinha muito envolvimento com os cantores e sempre gostei muito de música brasileira.”

Creusa Cunha chegou a ter três músicas entre as mais tocadas na época, foram cinco discos gravados durante a sua carreira. “Mas, em 1970, mamãe decidiu voltar para Recife porque o meu padrasto a proibiu de continuar cantando. Eu decidi ficar em São Paulo e passei a cuidar de mim, ou não, desde então”, brinca.

Ele conta que quando a família foi embora percebeu que precisava se sustentar e o seu primeiro trabalho foi com Genival Melo, ex-empresário de sua mãe. “Ele, inclusive, havia lançado muitos artistas no mercado, como Wanderley Cardoso, Nelson Ned, Carmem Silva – todo esse povo do estilo musical brega”, conta.

Depois acabou indo trabalhar como office boy e com o tempo tornou-se auxiliar de escritório na área de recursos humanos de uma empresa privada de grande porte. Mas foi em 1979 que a sua história se cruzou com a da Assembleia. “Um belo dia, o chefe de gabinete de um amigo com quem eu havia trabalhado me ligou e avisou que eu seria nomeado no cargo de auxiliar parlamentar. Foi uma surpresa! Vim para a Alesp e tomei posse.”

O primeiro setor de João Elísio na Assembleia foi na área parlamentar, no gabinete do deputado João Batista Breda, para o qual havia trabalhado na eleição anterior; ele conta que foi muito enriquecedor. “Acontece, porém, que na eleição seguinte o parlamentar não se reelegeu. Ele era médico e preferiu se dedicar a sua profissão.”

Então, João foi ocupar um cargo em comissão no serviço de protocolo da Casa, o que lhe deu uma visão maior da parte administrativa. A seguir, voltou para a área parlamentar, mais especifica­mente na liderança de um partido.

Ele conta que sempre gostou muito de se envolver e se sentir útil nas questões sociais e que a área parlamentar atendia e lhe aproximava desses seus anseios na juventude. “Era um pouco anarquista, depois esquerdista e depois anarquista esquerdista. Sempre fui iconoclasta, um pouco irreverente, sentia todas essas questões como algo que nasceu comigo.”

Talvez por sua personalidade inquieta e enérgica tenha começado e largado vários cursos de graduação, mas sua paixão pelo social o levou a concluir o curso de sociologia. “Me formei pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e fiz pós -graduação também em sociologia e política.”

Na década de 90, porém, sua vida tomou outra direção quando a então diretora do departamento de Recursos Humanos, Solange Gibran, o convidou para trabalhar naquele setor. “Foi uma experiência maravilhosa porque passei a entender sobre assuntos funcionais como contagem de tempo e licença prêmio e me senti útil para os colegas. Foi um dos períodos em que me senti mais feliz na Alesp.”

À época, João Elísio, decidiu fazer mais uma especialização, dessa vez em Recursos Humanos, na Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap). “Mesmo não sendo um curso voltado para o serviço público, eu quis me atualizar para entender melhor a linguagem da área.”

E na toada entre livros e sua vida de servidor público, o que era pra ser uma monografia de conclusão de curso tornou-se livro. “Eu sempre gostei de vozes femininas, talvez pela influência da minha mãe ” ela tinha um vozeirão. E eu precisava me dedicar a algo que eu gostava para escrever meu trabalho, então juntei as duas coisas.”

Dalva de Oliveira foi a estrela escolhida por João Elísio. “Eu gostava da voz dela, o tipo de canto dela é característico do final do século 19, das cantoras do teatro da época e das revistas portuguesas que vieram para o Brasil. Esse estilo de canto e timbre foi apreciado até a década de 70, que foi quando eu me inteirei que existia uma Dalva de Oliveira. Então, por que não homenageá-la? Ou fazer uma monografia sobre ela? No fim, não foi uma monografia ” fiz um livro.”

O processo de construção do livro foi longo, foram várias as fontes de pesquisas, desde os grandes jornais da época até entrevistas com diversos artistas e fãs da cantora. Em paralelo, veio a oportunidade de contar aquela história no teatro. “A certa altura entrevistei Renato Borghi, um dos sócios do Teatro Oficina. Comentei com ele que as músicas da Dalva dariam um bom roteiro teatral, e ele concordou em fazer a peça. Achei muito generoso da parte dele.”

Então começou a nova tarefa – a de construir um roteiro para a peça. “Pra mim foi um sofrimento, porque eu era meio rebelde, e o Borghi bem rígido. Eu tinha que chegar na casa dele na hora e começar a escrever”, se diverte.

O fato é que a peça de teatro foi um sucesso e acabou sendo lançada antes do livro. Na primeira turnê, a protagonista Dalva de Oliveira foi interpretada por Marília Pêra. “O espetáculo tinha direção de Jorge Fernando e estreou no Rio de Janeiro. Lotava de quarta a domingo. E foram várias as cidades brasileiras por onde a turnê passou.”

Nesse forte movimento artístico que se colocava mais uma vez em sua vida, João Elísio pediu licença (não remunerada) de dois anos da Alesp e viajou para acompanhar a peça. “Viajei, gastei todo dinheiro que ganhei com o espetáculo e voltei pra Assembleia”, brinca.

Ele conta que ainda hoje é convidado para falar sobre o livro, participando de bate-papos, saraus, rodas de conversa. “O trabalho foi bom, gratificante, muito legal, mas o meio artístico não é para mim. Preferi continuar na Alesp.”

Hoje, João Elísio é aposentado e secretário-geral da Associação dos Servidores Aposentados e Pensionistas da Alesp (Aspal). “Mantenho-me atuante nas pautas da associação. O que fica é o meu envolvimento com a questão social, a felicidade de ter vivido todos esses desafios e a gratidão à Alesp. Nunca esquecerei que graças às oportunidades que tive aqui que consegui concluir meu curso superior.”

Comunicação/Cal/Pública/2020

1 Comentário

  1. O João Elisio, meu xará, era uma pessoa muito boa. Afável com todo mundo. Verdadeiro mão aberta para ajudar a quem precisasse. Queria um Brasil mais justamente distributivo. Inteligentissimo e humilde.

    Vou sentir muita saudade dele. Fará falta na ALESP.

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